Cachorro pisca mais para o tutor do que para estranhos, diz estudo
Pesquisa italiana descobriu que os cães piscam com mais frequência ao ver seus donos fazendo o mesmo gesto, mas cientistas alertam que ainda não é possível falar em mensagem consciente
Cachorro pisca mais para o tutor do que para estranhos, diz estudo
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Parma, na Itália, descobriu que cães piscam com mais frequência quando observam seus próprios tutores piscando, mas praticamente não reagem da mesma forma diante de pessoas desconhecidas. O trabalho foi publicado na revista científica Royal Society Open Science em 26 de agosto de 2026.
A descoberta reforça a ideia de que o vínculo entre cão e tutor influencia até gestos considerados automáticos, como o piscar de olhos. Segundo os cientistas, o resultado não significa que o animal esteja piscando de propósito para "dizer" algo específico ao dono.
Como foi feito o experimento com os cães
A pesquisa reuniu inicialmente 38 cães, dos quais 35 seguiram até a análise final (17 fêmeas e 18 machos, com idades entre 1 e 12 anos). Cada animal assistiu a dois vídeos de 40 segundos, nos quais apareciam três pessoas: o próprio tutor, um homem desconhecido e uma mulher desconhecida.
Em uma das gravações, as três pessoas piscavam a cada três segundos. Na outra, mantinham os olhos abertos e fixos, sem piscar. Um sistema especializado em análise de movimentos faciais registrou as reações dos cães durante as sessões, que duraram cerca de 12 minutos cada, com intervalo de cinco minutos entre os vídeos.
O resultado mostrou aumento significativo nas piscadas apenas quando o cão via seu próprio tutor piscando. Diante dos desconhecidos, esse efeito praticamente não apareceu, mesmo quando eles também piscavam.
O que os cientistas dizem sobre o significado do gesto
Chiara Canori, primeira autora do estudo, explicou que a equipe quis isolar o ato de piscar de outros elementos presentes numa interação social real, algo que segundo ela nunca havia sido feito dessa forma. "Isso sugere que importa a relevância social do parceiro", afirmou a pesquisadora, em declaração reproduzida pela Rádio Itatiaia. Apesar do achado, Canori faz uma ressalva importante: não há como afirmar que o cão pisca de forma deliberada para passar uma mensagem. "A partir de hoje, não podemos dizer que um cão pisca deliberadamente para transmitir uma mensagem concreta", disse ela à mesma emissora.
Para a cientista, o comportamento pode funcionar como um sinal sutil de atenção ou envolvimento durante a interação, e talvez ajude o animal a se coordenar com um parceiro socialmente importante, como o tutor.
Não houve sincronização exata entre as piscadas
Embora os cães tenham piscado mais ao ver seus tutores piscando, os pesquisadores não encontraram evidências de sincronia entre o gesto do cão e o do humano. Dos 96 episódios de piscada analisados, 57,3% ocorreram até 1,5 segundo depois de uma piscada humana, mas essa proporção não foi maior do que o esperado pelo acaso, segundo dados divulgados pela Rádio Itatiaia.
Os cientistas também não identificaram diferenças relevantes em outros comportamentos observados durante os testes, como lamber o nariz, ofegar ou desviar o olhar. Em comunicado citado pelo GazetaWeb, a equipe afirma que "o piscar de olhos pode desempenhar um papel no repertório comportamental dos cães em contextos sociais", sem que isso configure imitação deliberada.
A etóloga Laura Cuaya, da Universidade de Viena, que não participou da pesquisa, avaliou os achados como relevantes, mas defendeu cautela. "Ainda assim, este estudo mostra como nossos cães são socialmente sensíveis a sinais sutis, como o piscar, em nossos rostos", disse ela à Rádio Itatiaia.
Próximos passos da pesquisa
Os autores do estudo pretendem agora investigar se o piscar dos próprios humanos muda quando interagem diretamente com seus cães em diferentes situações sociais, e também como a frequência das piscadas varia conforme o ambiente e o contexto.
O que fazer com essa informação no dia a dia
O estudo não recomenda nenhuma ação prática do tutor, mas ajuda a entender que gestos discretos do cão podem estar ligados ao vínculo afetivo com quem convive com ele. Ainda não há confirmação científica de que piscar de volta para o cão produza algum efeito no comportamento do animal, já que a pesquisa não testou essa direção.
O que fica estabelecido, por ora, é que o cão presta atenção a detalhes sutis do rosto do tutor e reage de forma diferente dependendo de quem está diante dele. Novos estudos devem esclarecer se esse tipo de sinal também aparece em outros contextos, como passeios, brincadeiras ou momentos de estresse, e se pode ser usado como indicador de bem-estar do animal.


