O STF (Supremo Tribunal Federal) tende a validar a redução de penas para condenados do 8 de Janeiro e da trama golpista, mas com uma série de recados sobre a necessidade de combater com rigor qualquer novo ataque à democracia.

    Parte dos ministros discorda do PL da Dosimetria por entender que a medida significa um incentivo a novos atos antidemocráticos, mas mesmo entre esses magistrados há um consenso de que a definição das penas é uma prerrogativa do Congresso Nacional.

    A leitura desse grupo é de que a severidade das punições era uma espécie de vacina contra um novo atentado às sedes dos três Poderes, risco que, em ano eleitoral, a área de segurança do Supremo não despreza.

    Ao mesmo tempo, os magistrados avaliam que, se as punições foram altas, isso se deve ao próprio Congresso, já que a dosimetria foi calculada com base nas penalidades previstas em lei para cada tipo de crime.

    O líder do PT na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai (SC), disse que, assim que a lei for promulgada, o partido vai entrar com uma ação no Supremo pedindo que a norma seja declarada inconstitucional. A judicialização já era esperada pelos magistrados.

    O processo será sorteado a um ministro relator, que vai avaliar se concede liminar para suspender temporariamente a lei ou se adota rito abreviado para julgamento direto no colegiado.

    Segundo um ministro do STF e interlocutores de outros quatro ouvidos pela reportagem, o cenário é de maioria pela manutenção da lei, por respeito ao princípio da separação dos Poderes.

    Nos gabinetes, houve comentários sobre possível afronta à impessoalidade, já que o projeto avançou para beneficiar um grupo específico. Porém, o momento institucional do Judiciário, com crise de credibilidade após o caso Banco Master, é considerado delicado para interpretações mais ousadas.

    A ala que prega um Supremo mais autocontido — como André Mendonça, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e Edson Fachin — deve votar pela constitucionalidade da lei.

    O decano, Gilmar Mendes, já declarou que o Congresso tem atribuição para reduzir penas, ponderando que anistia ampla seria inconstitucional. Flávio Dino disse esperar que o Congresso não mude a lei, mas reconheceu que pode fazê-lo.

    O relator das investigações, Alexandre de Moraes, afirmou que atenuar penas seria um recado de que o Brasil tolera novos flertes contra a democracia. No entanto, sinalizou que, se essa foi a opção do Congresso, cabe a ele aplicar as mudanças, pois leis mais benéficas retroagem.

    Moraes negou o pedido de Débora Rodrigues (“Débora do Batom”) porque a lei ainda não está em vigor. Na quinta-feira (30), o Congresso derrubou o veto de Lula, mas a norma ainda não foi promulgada.

    Como mostrou a Folha de S. Paulo, Moraes manteve diálogo com parlamentares sobre o projeto, dando sugestões para o texto. Assessores avaliam que a vigência da lei pode arrefecer tensões, preservando o poder do STF na execução das penas.

    A aplicação das novas regras ficará a cargo de Moraes, que analisará os pedidos caso a caso. Cinco advogados de condenados já preparam pedidos de recálculo.

    Moraes deve deixar claro que, apesar do direito à lei mais benéfica, não vai recuar no combate a atos antidemocráticos e que as investigações sobre milícias digitais prosseguirão.

    De acordo com relatório de 26 de abril, 1.402 réus foram responsabilizados pelo 8 de Janeiro, dos quais 850 condenados a penas privativas de liberdade. Destes, 419 tiveram pena convertida em serviços comunitários.

    A penalidade mínima foi de três meses de prisão e a máxima, de 27 anos e três meses, caso do ex-presidente Jair Bolsonaro. A maioria (404 casos) foi condenada a um ano. Com a nova lei, a pena de Bolsonaro pode cair para 22 anos e um mês, com progressão de regime mais rápida: de 5 anos e 11 meses para 3 anos e 3 meses em regime fechado.

    Share.
    Nilson Tales Guimarães

    Formado em Engenharia de Alimentos pela UEFS, Nilson Tales trabalhou durante 25 anos na indústria de alimentos, mais especificamente em laticínios. Depois de 30 anos, decidiu dedicar-se ao seu livro, que está para ser lançado, sobre as Táticas Indústrias de grandes empresas. Encara como hobby a escrita dos artigos no Curioso do Dia e vê como uma oportunidade de se aproximar da nova geração.