A história da cerveja está ligada à história do trabalho. Muito antes de ser um símbolo de descanso, a bebida foi usada como salário, nutrição e ferramenta de mobilização social. Das tavernas medievais aos pubs da Revolução Industrial, ela serviu como elo entre trabalhadores ao longo dos séculos. Para celebrar o 1º de maio, o Guia da Cerveja listou cinco fatos históricos que mostram essa relação.

    Salário em estado líquido

    A relação entre cerveja e trabalhador remonta à Antiguidade. Muitas civilizações usavam a bebida como parte do pagamento pela mão de obra. Uma tabuleta de argila de 3 mil a.C., do acervo do Museu Britânico, funciona como um holerite ancestral, registrando as rações de cerveja distribuídas aos operários na cidade de Uruk, na Mesopotâmia. No Egito Antigo, também há registros dessa prática, e há relatos de que até as pirâmides foram construídas com apoio da bebida, que garantia hidratação e nutrição.

    Saison: o combustível das fazendas

    Antes da cerveja chegar às cidades, ela era feita em fazendas. A Saison é um estilo que conserva essa história. No interior da Bélgica, fazendeiros produziam a Saison no outono e inverno para vender aos saisonnieres, trabalhadores temporários que chegavam para a plantação no verão. Segundo Phil Markowski, mestre cervejeiro, a Saison era uma cerveja de provisão, que atendia a três objetivos: refrescar os trabalhadores, ocupar a mão de obra fixa no inverno e gerar bagaço para alimentar o gado. As Saisons modernas mantêm o caráter rústico, com notas frutadas e toque condimentado.

    Grisette: a aliada dos mineiros

    A cerveja também acompanhou os trabalhadores nas minas de carvão. O Sul da Bélgica foi uma das primeiras regiões a se industrializar no fim do século 18. A Grisette, variação da Saison, era apreciada por mineradores. Leve e refrescante, ajudava a recuperar as energias após um dia exaustivo. O nome significa “a pequena cinzenta”, possivelmente por causa da aparência turva ou da condição dos trabalhadores cobertos de cinzas.

    Porter: a “rockstar” da Revolução Industrial

    A Porter é uma das histórias mais conhecidas sobre a bebida e a classe trabalhadora. O nome é o mesmo dado aos estivadores do porto de Londres no século 18. Ela se tornou símbolo da Revolução Industrial, sustentando a nova massa de operários. Uma das lendas diz que surgiu como mistura de cervejas nos pubs, consumida por trabalhadores braçais. A Porter foi uma das primeiras cervejas escuras, antes mesmo dos maltes torrados modernos. A Fuller’s London Porter tenta fazer referência às versões iniciais.

    Bitters, German Lagers e o Movimento Trabalhista

    As primeiras manifestações do Movimento Trabalhista ocorreram na Inglaterra no século 19, por melhores condições e jornadas menores. Reuniões de trabalhadores eram ilegais até 1824, e muitos encontros aconteciam em pubs. Além da Porter e da Stout, havia as Bitters, cervejas mais claras e amargas. Esse tipo de cerveja acompanhou o crescimento do movimento trabalhista europeu. Nos Estados Unidos, no dia 1º de maio de 1886, em Chicago, mais de 300 mil trabalhadores fizeram greve por jornada de oito horas. Três dias depois, ocorreu o massacre de Haymarket. Em 1889, em Paris, o 1º de maio foi instituído como símbolo da luta trabalhista. A cerveja que acompanhava os trabalhadores na época era a German Pils, trazida por imigrantes germânicos.

    O Brasil e o Dia do Trabalho

    No Brasil, o Dia do Trabalho começou a ser comemorado no início do século 20. O feriado foi estabelecido por decreto do presidente Artur Bernardes em 1924. Em 1º de maio de 1943, Getúlio Vargas assinou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), instituindo salário mínimo e férias.

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    Nilson Tales Guimarães

    Formado em Engenharia de Alimentos pela UEFS, Nilson Tales trabalhou durante 25 anos na indústria de alimentos, mais especificamente em laticínios. Depois de 30 anos, decidiu dedicar-se ao seu livro, que está para ser lançado, sobre as Táticas Indústrias de grandes empresas. Encara como hobby a escrita dos artigos no Curioso do Dia e vê como uma oportunidade de se aproximar da nova geração.