Nos últimos meses, um fenômeno chamou atenção nas redes sociais do Brasil: muitas pessoas estão compartilhando experiências negativas com seus psicólogos. Um vídeo no TikTok teve 50,8 mil curtidas e mais de 3 mil comentários. O que aconteceu? Uma mulher contou que, após sete anos de terapia, descobriu que sua psicóloga tinha contato secreto com seus pais e tinha compartilhado informações confidenciais sem a sua autorização.
Nos comentários, muitas histórias parecidas surgiram. Uma usuária escreveu: “Minha ex psicóloga chamou minha mãe na sala e falou mal de mim. EU TINHA 25 ANOS!” Outra disse: “Sou autista e fui procurar a ajuda de uma psicóloga. Na primeira consulta, ela me disse para ‘esquecer que sou autista e agir como as outras pessoas’. Nunca mais voltei.” Comentário esse que recebeu 912 curtidas.
Trabalho com marketing para terapeutas desde 2015 e já atendi muitos psicólogos, ajudando a criar conteúdo e gerenciar suas redes sociais. Isso me deu uma visão privilegiada do dia a dia desses profissionais, revelou comportamentos que geram inquietação.
A Observação Repetida
Uma coisa é clara: muitos terapeutas que falam sobre flexibilidade e escuta ativa acabam mostrando rigidez quando o assunto é o próprio trabalho. Sugestões para mudar a forma como se comunicam são vistas como ataques. Feedbacks são interpretados como ofensas. Sempre que alguém pede uma mudança, ouve-se a frase: “isso não está alinhado com meus valores”, que na prática serve como bloqueio.
Essa situação é irônica. Profissionais que pedem aos pacientes para lidarem melhor com críticas e frustrações parecem ter dificuldade em aplicar isso no próprio trabalho.
Nem todos os psicólogos são assim, claro. Existem muitos comprometidos e éticos. No entanto, as queixas são frequentes e suficientes para criar um padrão que afeta a crença do público na profissão.
O Que a Pesquisa Mostra
Estudos acadêmicos confirmam algumas dessas observações. David Burns, um psiquiatra da Universidade de Stanford, descobriu um dado preocupante: a percepção dos terapeutas sobre como seus pacientes se sentem é, muitas vezes, muito diferente da realidade. Eles se acham muito úteis, mas, na prática, a ajuda que oferecem é bem menor do que acreditam.
Burns não diz que a terapia é inútil. Ele acredita no potencial dela, mas alerta: a vaidade do terapeuta pode atrapalhar o processo. Conhecimento sobre mecanismos de defesa pode se tornar apenas mais uma forma de proteção para não lidar com o que realmente importa. Reconhecer problemas não significa que haverá transformação.
Um artigo discute como alguns terapeutas podem ser arrogantes, usando jargões que poucos entendem. Acostumados a serem os sábios da relação, eles podem ter dificuldades em aceitar críticas. Se o diálogo se inverte, o ego deles pode não suportar.
O Ambiente Protegido e Suas Consequências
O espaço da terapia dá ao profissional controle total sobre a situação: o tempo, a estrutura da conversa. Não há confronto direto nesse contexto, o que é necessário, mas também cria uma bolha. Dentro dela, muitos terapeutas não desenvolvem a habilidade de lidar com frustrações ou discordâncias.
Vale lembrar também que muitos desses profissionais entram na psicologia para lidar com suas próprias feridas. Isso não é um problema, mas se torna complicado quando não têm um trabalho pessoal contínuo. Feridas não resolvidas se tornam grandes pontos cegos, dificultando a visão do que realmente acontece.
O Que Está Acontecendo Nas Redes Sociais
TikTok e Instagram se tornaram espaços para ex-pacientes contarem experiências que antes ficavam em conversas privadas. Os relatos vão além de descontentamentos comuns. Eles incluem queixas sobre comportamentos antiéticos e estranhos:
- Uma psicóloga perdeu a ficha do paciente e fez ele repetir tudo.
- Outra parecia indiferente ao ouvir que o gato da paciente tinha câncer.
- Profissionais que validaram apenas um lado durante terapia de casal.
- Uma psicóloga que insistia em falar só sobre a própria vida.
Um comentário que teve 235 curtidas dizia: “Desisti da minha porque percebi que ela não prestava mais atenção. Uma vez, vi pelo reflexo de seus óculos que ela estava no Instagram.” Outro, com quase 2 mil curtidas, conta sobre uma situação no trabalho: “Fui contar que tinha problemas e minha psicóloga disse que meu gerente era ótimo. Saí da terapia e depois descobri que ele foi demitido por justa causa.”
Um dos mais impactantes teve 1.676 curtidas: “Não confio em psicólogo nenhum.”
Por Que Isso Não Aparece Nos Canais Formais
Essas reclamações raramente chegam aos Conselhos Regionais de Psicologia. Muitas pessoas sentem vergonha, têm medo de não serem ouvidas ou temem retaliação. Algumas preferem só seguir em frente, guardando experiências ruins para si.
Formalizar uma denúncia é difícil. Exige documentação e coragem. É mais fácil desabafar nas redes sociais e ver outras pessoas confirmando sua experiência.
Esse movimento representa uma mudança na relação de poder entre terapeuta e paciente. A imagem do profissional como autoridade inquestionável está sendo desafiada. Pacientes estão trocando experiências e percebendo comportamentos que não são aceitáveis, não importa o diploma.
O Lado Positivo da Exposição
A Dra. Nicole Arcuri-Sanders, em um artigo, admite que suas reações muitas vezes têm a ver com o próprio ego. Cada vez que um paciente busca ajuda e depois a rejeita, ela quer que ele tenha sucesso. A honestidade em reconhecer essa interferência é um importante primeiro passo.
A exposição nas redes sociais pode, paradoxalmente, aumentar a qualidade dos atendimentos. Quando os profissionais sabem que podem ser criticados publicamente, isso pode levá-los a se comportarem de forma mais ética. O medo de ter seu nome em um post viral pode servir como um controle que conselhos de classe não conseguem exercer.
O Que Os Profissionais Podem Fazer
Reconhecer Limitações: Ter conhecimento teórico não imuniza contra padrões disfuncionais. Terapeuta que não aceita críticas precisa passar por terapia pessoal.
Buscar Supervisão: A supervisão deve ser vista como uma necessidade, não como obrigação. O terapeuta deve se abrir para feedbacks e trabalhar suas dificuldades.
Desenvolver Humildade: Pesquisas mostram que profissionais que têm dúvidas sobre suas habilidades são mais eficazes. Confiança excessiva pode levar a erros.
Aceitar Mudanças: Os pacientes têm voz e isso deve ser visto como positivo. O que acontece na terapia pode ser avaliado publicamente, estimulando a excelência.
O Que Os Pacientes Podem Fazer
Desenvolver Crítica: É importante entender que a terapia não é uma solução mágica e que questões complexas precisam de tempo.
Ficar Atento a Sinais: Fique de olho em comportamentos inadequados, como terapeutas que falam demais de si, que não respeitam o sigilo, ou que desvalorizam suas emoções.
Considerar Denunciar: Se houver condutas antiéticas graves, uma denúncia formal no Conselho Regional é uma opção. O processo pode ser complicado, mas pode resultar em consequências.
Trocar de Terapeuta: Se não houver conexão ou a abordagem não for a certa, trocar de profissional é natural e deve ser considerado sem culpa.
A Transformação Já Começou
O movimento de exposição nas redes sociais não é passageiro. Ele reflete uma mudança cultural em todas as esferas, incluindo médicos, professores e terapeutas. Embora possa ser desconfortável, essa mudança é saudável a longo prazo.
Terapeutas que resistem às críticas estão perdendo a chance de aprender. Aqueles que ouvem com atenção e usam isso para refletir sobre si mesmos estão fazendo exatamente o que pedem de seus pacientes: crescer com a experiência.
Profissionais que estudam a resistência e as defesas emocionais ainda se prendem a elas quando se refere à própria vida. Mas agora, esse fenômeno está sendo discutido publicamente e sem medo. E talvez essa abertura seja o que vai realmente fazer a diferença.
